Liszt Vieira e Marijane Lisboa (*)
postado em: 23/01/2015
Na campanha eleitoral, a candidata Dilma transformou
adversários em inimigos a serem abatidos. Devorou o inimigo, absorvendo
seus defeitos e qualidades e adotando seu programa econômico, numa
antropofagia política como há muito não se via. Se a antropofagia
cultural criou algo novo, a política apenas reproduz o velho.
Além
de pedir ao Bradesco para indicar o Ministro da Fazenda, a presidenta
foi mais longe: convidou para Ministra da Agricultura uma liderança
ruralista que se notabilizou pela rejeição da reforma agrária, apoio ao
desmatamento e violação dos direitos indígenas. Para o Ministério das
Cidades, sai o PP e entra o PSD do Kassab, numa troca de seis por meia
dúzia. E para a Ciência e Tecnologia, um inimigo da ciência. Patrus
Ananias e Juca Ferreira são honrosas exceções à mediocridade dominante.
O
capital necessita expandir suas fronteiras e abocanhar as áreas
protegidas que estão fora do mercado, como unidades de conservação e
terras indígenas. Há centenas de projetos de lei no Congresso reduzindo
essas áreas que seriam “desafetadas”. Um novo Código de Mineração, que
permitirá, ou melhor, imporá a mineração em terras indígenas, já está
prestes a ser votado no Congresso.
Tudo ocorre sob o olhar
complacente do PT que se tornou cúmplice da política neo-extrativista
que fortalece a reprimarização da economia baseada na exportação de
produtos primários sem agregar valor (soja, carne, madeira, minérios).
Assim
como o PSDB, o governo do PT acredita que a solução para o país é o
crescimento econômico predatório dos recursos naturais, sem privilegiar
qualidade de vida. E se houver índios, meio-ambiente ou Ministério
Público atrapalhando, passa por cima. Com 39 ministros – a grande
maioria medíocre – o primeiro governo Dilma foi, em todas as áreas,
muito pior que seu antecessor. Desorganizou as contas públicas, estancou
o crescimento, estabilizou a desigualdade que parou de cair, aumentou o
desmatamento da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, que haviam caído, e
desapareceu do cenário internacional.
Priorizou grandes
hidroelétricas na Amazônia sem consulta às populações indígenas e
tradicionais afetadas, fez corpo mole no combate ao desmatamento para
não contrariar pecuaristas, madeireiros e mineradores responsáveis pelo
desmatamento que voltou a crescer, deu incentivos à indústria
automobilística em desconsideração ao grave problema das mudanças
climáticas. E nenhum incentivo foi concedido a projetos de
sustentabilidade.
Houve avanços, especialmente nos programas
sociais que aumentaram a renda nos estratos mais pobres, assim como
ocorreu nas camadas mais ricas. Mas o baixíssimo crescimento econômico e
pressão inflacionária ameaçam a oferta de emprego e o poder aquisitivo
do salário. Daí a presidente reeleita haver assumido a proposta, antes
demonizada, do “inimigo” devorado: aumentou os impostos e a taxa de
juros, cortou gastos públicos e benefícios sociais, e ignorou a proposta
de taxar as grandes fortunas.
A corrupção na Petrobras explica
porque a usina Abreu e Lima passou de 2,5 a 20 bilhões de dólares e a
refinaria Pasadena custou em torno de 1,5 bilhão, quando um ano antes
custava 42,5 milhões. E a presidenta Dilma aprovou essa transação sem se
preocupar com o contrato, confiando apenas num parecer “técnico” de
duas páginas.
Por ocasião da entrega do Relatório da Comissão da
Verdade, a Presidenta mencionou misteriosos pactos políticos entre os
ditadores de plantão e uma oposição desconhecida para impedir a punição
dos agentes de Estado responsáveis pelas torturas e assassinatos de
presos políticos. Lembremos que a ONU e a OEA são taxativas sobre a
impropriedade de auto-anistias para crimes contra a humanidade cometidos
durante a Ditadura.
Mas tudo isso foi esquecido durante o
momento mágico da campanha eleitoral, quando se desenterraram antigas
teses ideológicas da esquerda contra a direita. Pura música para ouvidos
militantes e ameaças para as camadas de baixa renda que perderiam
benefícios sociais em caso de derrota do PT.
Uma visão romântica
que desmoronou após a eleição. A realidade é mais complexa. O Bradesco
nomeou o Ministro da Fazenda, um neoliberal ortodoxo, e a presidenta
Dilma, em escolha pessoal, nomeou um símbolo da direita para Ministra da
Agricultura.
O canibalismo político atual retoma antiga fórmula
lulista: um programa econômico neoliberal, mercadocêntrico, e um
programa social estadocêntrico. Um híbrido de neoliberalismo e
desenvolvimentismo. Mas a conjuntura internacional agora é de crise
econômica. Nesse contexto, política de austeridade provoca recessão. O
risco de fracasso é grande, o que ameaçará a permanência do PT no poder,
por maiores que sejam as piruetas ideológicas dos marqueteiros
oficiais.
Fonte: www.cartamaior.com.br
(*) Liszt Vieira é professor da PUC-Rio e ex-deputado pelo PT/RJ. Marijane Lisboa é Professora da PUC-SP