domingo, 1 de março de 2015

Esgotos jorram resíduos há 8 dias no Bairro do Peru.

Os moradores da Rua do triângulo no bairro do Peru, estão há 8 dias trafegando entre o esgoto e a fedentina que incomoda a todos que passam nas mediações. A principal Rua do bairro, Av. João Teixeira também encontra-se na mesma situação, alguns moradores avisaram a prepostos da Adm. Municipal mas nada foi feito até o momento. Além da poluição visual,  o mal cheiro, a proliferação de doenças,  a sujeira já está prejudicando os comerciantes locais, reforçamos o pedido de providências à administração Municipal.

Saudações.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Bandeira de Mello: Parecer contra Dilma é uma armadilha para desestabilizar o governo.

publicado em 8 de fevereiro de 2015 às 21:01: Fonte: www.viomundo.com.br
professor-Celso-Antônio-Bandeira-de-Mello
por Conceição Lemes
Em artigo publicado na Folha de S. Paulo  de 3 de fevereiro, o  jurista Ives Gandra Martins diz haver fundamentos para o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) por causa dos escândalos na Petrobras. Gandra foi contratado pelo advogado José de Oliveira Costa para fazer um parecer sobre o tema.
No dia seguinte, 4 de fevereiro, reportagem de Mário César Carvalho na mesma Folha revela a origem. Costa trabalha para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e integra o conselho do Instituto FHC. É o golpismo do tucanato em andamento.
Pedi então a um dos mais respeitados juristas brasileiros, o professor Celso Antônio Bandeira de Mello, da PUC-São Paulo, que opinasse sobre a opinião de Ives Gandra.
Ele não quis comentar o conteúdo do parecer e alertou: “É uma armadilha. É uma tentativa de fazer com que juristas discutam esse tema. E não há nada que ser discutido. Para ser sincero,é um disparate, um absurdo completo”.
“A meu ver, é aquilo que no futebol se chama de tentativa de ganhar no tapetão. Nada mais do que isso”, previne.
“Eles [os tucanos] perderam a eleição e não gostaram. Agora estão tentando transformar isso em tema jurídico para desestabilizar o governo da Dilma”, explica.
“Eles querem que o assunto vire tema jurídico. E não é. É uma questão política”, frisa.
– É uma artimanha para manter o tema na mídia na ordem do dia?
“Exato. Eles querem transformar o impeachment em tema para debate. E isso não é tema para debate algum”, ressalta Bandeira de Mello. “A Dilma ganhou lisamente a eleição. Eles fizeram de tudo para derrotá-la, não conseguiram. Agora, querem ganhar no tapetão o que perderam no campo.”

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Antropofagia política: os rumos do governo Dilma

Liszt Vieira e Marijane Lisboa (*)

postado em: 23/01/2015
Na campanha eleitoral, a candidata Dilma transformou adversários em inimigos a serem abatidos. Devorou o inimigo, absorvendo seus defeitos e qualidades e adotando seu programa econômico, numa antropofagia política como há muito não se via. Se a antropofagia cultural criou algo novo, a política apenas reproduz o velho.

Além de pedir ao Bradesco para indicar o Ministro da Fazenda, a presidenta foi mais longe: convidou para Ministra da Agricultura uma liderança ruralista que se notabilizou pela rejeição da reforma agrária, apoio ao desmatamento e violação dos direitos indígenas. Para o Ministério das Cidades, sai o PP e entra o PSD do Kassab, numa troca de seis por meia dúzia. E para a Ciência e Tecnologia, um inimigo da ciência. Patrus Ananias e Juca Ferreira são honrosas exceções à mediocridade dominante.

O capital necessita expandir suas fronteiras e abocanhar as áreas protegidas que estão fora do mercado, como unidades de conservação e terras indígenas. Há centenas de projetos de lei no Congresso reduzindo essas áreas que seriam “desafetadas”. Um novo Código de Mineração, que permitirá, ou melhor, imporá a mineração em terras indígenas, já está prestes a ser votado no Congresso.

Tudo ocorre sob o olhar complacente do PT que se tornou cúmplice da política neo-extrativista que fortalece a reprimarização da economia baseada na exportação de produtos primários sem agregar valor (soja, carne, madeira, minérios).

Assim como o PSDB, o governo do PT acredita que a solução para o país é o crescimento econômico predatório dos recursos naturais, sem privilegiar qualidade de vida. E se houver índios, meio-ambiente ou Ministério Público atrapalhando, passa por cima. Com 39 ministros – a grande maioria medíocre – o primeiro governo Dilma foi, em todas as áreas, muito pior que seu antecessor. Desorganizou as contas públicas, estancou o crescimento, estabilizou a desigualdade que parou de cair, aumentou o desmatamento da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, que haviam caído, e desapareceu do cenário internacional.

Priorizou grandes hidroelétricas na Amazônia sem consulta às populações indígenas e tradicionais afetadas, fez corpo mole no combate ao desmatamento para não contrariar pecuaristas, madeireiros e mineradores responsáveis pelo desmatamento que voltou a crescer, deu incentivos à indústria automobilística em desconsideração ao grave problema das mudanças climáticas. E nenhum incentivo foi concedido a projetos de sustentabilidade.

Houve avanços, especialmente nos programas sociais que aumentaram a renda nos estratos mais pobres, assim como ocorreu nas camadas mais ricas. Mas o baixíssimo crescimento econômico e pressão inflacionária ameaçam a oferta de emprego e o poder aquisitivo do salário. Daí a presidente reeleita haver assumido a proposta, antes demonizada, do “inimigo” devorado: aumentou os impostos e a taxa de juros, cortou gastos públicos e benefícios sociais, e ignorou a proposta de taxar as grandes fortunas.

A corrupção na Petrobras explica porque a usina Abreu e Lima passou de 2,5 a 20 bilhões de dólares e a refinaria Pasadena custou em torno de 1,5 bilhão, quando um ano antes custava 42,5 milhões. E a presidenta Dilma aprovou essa transação sem se preocupar com o contrato, confiando apenas num parecer “técnico” de duas páginas.

Por ocasião da entrega do Relatório da Comissão da Verdade, a Presidenta mencionou misteriosos pactos políticos entre os ditadores de plantão e uma oposição desconhecida para impedir a punição dos agentes de Estado responsáveis pelas torturas e assassinatos de presos políticos. Lembremos que a ONU e a OEA são taxativas sobre a impropriedade de auto-anistias para crimes contra a humanidade cometidos durante a Ditadura.

Mas tudo isso foi esquecido durante o momento mágico da campanha eleitoral, quando se desenterraram antigas teses ideológicas da esquerda contra a direita. Pura música para ouvidos militantes e ameaças para as camadas de baixa renda que perderiam benefícios sociais em caso de derrota do PT.

Uma visão romântica que desmoronou após a eleição. A realidade é mais complexa. O Bradesco nomeou o Ministro da Fazenda, um neoliberal ortodoxo, e a presidenta Dilma, em escolha pessoal, nomeou um símbolo da direita para Ministra da Agricultura.

O canibalismo político atual retoma antiga fórmula lulista: um programa econômico neoliberal, mercadocêntrico, e um programa social estadocêntrico. Um híbrido de neoliberalismo e desenvolvimentismo. Mas a conjuntura internacional agora é de crise econômica. Nesse contexto, política de austeridade provoca recessão. O risco de fracasso é grande, o que ameaçará a permanência do PT no poder, por maiores que sejam as piruetas ideológicas dos marqueteiros oficiais.

Fonte: www.cartamaior.com.br



(*) Liszt Vieira é professor da PUC-Rio e ex-deputado pelo PT/RJ. Marijane Lisboa é Professora da PUC-SP

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE Relatório coloca imprensa diante do espelho.


COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

Relatório coloca imprensa diante do espelho

Por Luciano Martins Costa em 11/12/2014 na edição nº 828
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 11/12/14
A apresentação do relatório final da Comissão da Verdade, em solenidade oficial, marca o momento histórico em que as instituições brasileiras são colocadas diante da escolha entre consolidar a democracia ou manter ao relento os fantasmas da ditadura.O destino do documento não é tão importante quanto as responsabilidades que ele coloca diante da sociedade, num contexto em que uma parcela da população, ainda que mínima, se sente encorajada a pedir a volta do regime de exceção.
Os três jornais de circulação nacional, que conduzem a agenda pública e ancoram os principais temas que circulam nas redes de comunicação, destacam o assunto em manchete e, em graus variados de sutileza, tratam de desencorajar o passo seguinte, que seria o processo de punição dos autores dos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas colocadas sob sua guarda.A leitura criteriosa de cada um deles revela que tanto o Globo quanto a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo prefeririam não ter que lidar com esse legado macabro.
Mas a História, como se sabe, se desenrola em conjuntos de espirais e de cada uma delas se pode confrontar, periodicamente, tudo aquilo que não foi resolvido em seu devido tempo.Assim como a corrupção de hoje reflete a impunidade de antigas falcatruas, a vergonha que agora atinge algumas entidades do Estado, principalmente as Forças Armadas, é um reflexo da tentativa inútil de abafar sob o pó do tempo aquilo que não pode ficar oculto.
Os 377 criminosos apontados pela Comissão da Verdade representam não apenas o lado mais obscuro do regime deletério, mas também fazem lembrar aqueles que colaboraram ativamente, passivamente, ou na sombra da omissão, para que os crimes fossem cometidos com tanta naturalidade ao ponto de se transformarem em processos quase burocráticos na rotina do aparato de repressão.Ativa, passiva ou na sombra da omissão, a imprensa tem sua parcela de responsabilidade, e nesta quinta-feira (11/12) pode-se observar como cada uma das grandes empresas de mídia reage diante do espelho.
Encarando o passado
Dos três principais diários do País, o único que evita abordar o assunto em editorial é a Folha de S. Paulo – que preferiu citar em nota curta o trecho do documento que se refere ao apoio que parte da imprensa deu ao golpe militar em 1964.
Também há referência ao trecho em que o relatório acusa a empresa Folha da Manhã de haver financiado a Oban (Operação Bandeirantes, nome que se deu a um dos grupos do sistema repressivo) e de ter cedido veículos para suas ações.O texto reconhece que "em 1964, a Folha apoiou o golpe, como quase toda a grande imprensa", mas nega que o jornal tenha dado suporte financeiro ao sistema repressivo ou emprestado carros de sua frota para as ações ilegais.
Não era necessário haver um esquema oficial: pelo menos dois dos jornais do grupo eram dirigidos por policiais e empregavam agentes ligados ao sistema, que faziam jornada dupla, servindo ao jornalismo e ao aparato do Estado e circulavam à vontade a bordo das peruas Veraneio pintadas de amarelo.
Estado de S. Paulo e o Globo encaram em editoriais o passado que, confessadamente, prefeririam ver esquecido. O jornal paulista propõe uma forma estranha de resolver pendências históricas, ao dizer que a Lei da Anistia cobre todos os atos daqueles tempos: "Não se tratava de perdoar crimes, mas de deixá-los no passado, no âmbito da história", diz o texto.O Globo alinha as virtudes do relatório, principalmente o fato de iluminar os porões da repressão e ajudar a "manter viva a memória dos horrores da ditadura", mas também se manifesta contra o julgamento dos acusados.
De modo geral, o conjunto das reportagens e trechos do documento citado e comentado pelos três diários contribui para dar ao leitor uma ideia do que foram aqueles tempos de horror.
Destaque-se o texto em que o Globo reproduz depoimentos de vítimas que sobreviveram às sevícias, cuja leitura ajuda a entender a extensão daqueles crimes.Observe-se também que o título escolhido pela Folha para a reportagem principal distorce o sentido de justiça, propósito original da Comissão da Verdade: "Acerto de contas", diz o jornal.
A linguagem jornalística tem dessas sutilezas.

Fonte:  observatoriodaimprensa.com.br/news/view/relatorio_coloca_imprensa_diante_do_espelho

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O GOLPE DO GILMAR "DANTAS" MENDES...

Armado por Toffoli e Gilmar, já está em curso o golpe sem impeachment

Gilar e Toffoli planejam golpe do impeachment
Atualizado às 09:50
O processo de impeachment exige aprovação de 2/3 do COngresso. Já a rejeição das contas impede a diplomação. A decisão fica com o Judiciário. Este é o golpe paraguaio.
Já entrou em operação o golpe sem impeachment, articulado pelo Ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Antonio Dias Toffoli em conluio com seu colega Gilmar Mendes. O desfecho será daqui a algumas semanas.
As etapas do golpe são as seguintes:
1. Na quinta-feira passada, dia 13, encerrou o mandato do Ministro Henrique Neves no TSE. Os ministros podem ser reconduzidos uma vez ao cargo. Presidente do TSE, Toffoli encaminhou uma lista tríplice à presidente Dilma Rousseff. Toffoli esperava que Neves fosse reconduzido ao cargo (http://tinyurl.com/pxpzg5y).
2. Dilma estava fora do país e a recondução não foi automática. Descontente com a não nomeação, 14 horas depois do vencimento do mandato de Neves, Toffoli redistribuiu seus processos. Dentre milhares de processos, os dois principais - referentes às contas de campanha de Dilma - foram distribuídos para Gilmar Mendes. Foi o primeiro cheiro de golpe. Entre 7 juízes do TSE, a probabilidade dos dois principais processos de Neves caírem com Gilmar é de 2 para 100. Há todos os sinais de um arranjo montado por Toffoli.
3. O Ministério Público Eleitoral, através do Procurador Eugênio Aragão, pronunciou-se contrário à redistribuição. Aragão invocou o artigo 16, parágrafo 8o do Regimento Interno do TSE, que determina que, em caso de vacância do Ministro efetivo, o encaminhamento dos processos será para o Ministro substituto da mesma classe. O prazo final para a prestação de contas será em 25 de novembro, havendo tempo para a indicação do substituto - que poderá ser o próprio Neves. Logo, “carece a decisão ora impugnada do requisito de urgência”.
4. Gilmar alegou que já se passavam trinta dias do final do mandato de Neves. Na verdade, Toffoli redistribuiu os processos apenas 14 horas depois de vencer o mandato.
5. A reação de Gilmar foi determinar que sua assessoria examine as contas do TSE e informe as diligências já requeridas nas ações de prestação de contas. Tudo isso para dificultar o pedido de redistribuição feito por Aragão.
Com o poder de investigar as contas, Gilmar poderá se aferrar a qualquer detalhe para impugná-las. Impugnando-as, não haverá diplomação de Dilma no dia 18 de dezembro.
O golpe final - já planejado - consistirá em trabalhar um curioso conceito de Caixa 1. Gilmar alegará que algum financiamento oficial de campanha, isto é Caixa 1, tem alguma relação com os recursos denunciados pela Operação Lava Jato. Aproveitará o enorme alarido em torno da Operação para consumar o golpe.
Toffoli foi indicado para o cargo pelo ex-presidente Lula. Até o episódio atual, arriscava-se a passar para a história como um dos mais despreparados Ministros do STF.
Com a operação em curso, arrisca a entrar para a história de maneira mais depreciativa ainda. A história o colocará em uma galeria ao lado de notórios similares, como o Cabo Anselmo e Joaquim Silvério dos Reis.
Ontem, em jantar em homenagem ao presidente do STF, Ricardo Lewandowski, o ex-governador paulista Cláudio Lembo se dizia espantado com um discurso de Toffoli, durante o dia, no qual fizera elogios ao golpe de 64.
Se houver alguma ilegalidade na prestação de contas, que se cumpra a lei. A questão é que a operação armada por Toffoli e Gilmar está eivada de ilicitudes: é golpe.
Se não houver uma reação firme das cabeças legalistas do país, o golpe se consumará nas próximas semanas.

FONTE:  http://jornalggn.com.br/luisnassif


sábado, 18 de outubro de 2014

De Vargas a Lula. Por Celso Furtado


Post-scriptum


Este artigo foi publicado em 23 de novembro de 2004, poucos dias após a morte de Celso Furtado. Além de homenagear esse grande brasileiro, esse artigo buscou representar a grande esperança que significou a eleição do Lula para a grande obra de construção de nossa Nação. Hoje vemos que Celso Furtado previu corretamente o que aconteceria nos governos do PT.



Introdução


A morte do professor Celso Furtado simbolizou o fim de uma era do desenvolvimento. Uma era que ele soube traduzir como ninguém. Somos de uma geração, formada nos anos 90, que via a desigualdade e a pobreza como fatalidade. Não era assim que Celso Furtado via. Aliás, ele e sua geração de intelectuais desenvolvimentistas não apenas viam, eles eram importantes agentes políticos. Devemos a eles parte de nossa prosperidade e dos serviços públicos que ainda nos restam, principalmente nós que nascemos na chamada classe média.


O Velho Desenvolvimentismo e o povo


Nasci em 1975, sou filho do milagre. Por favor, não me confundam com “filhote da ditadura”, como Brizola genialmente batizou um de nossos ex-presidentes. Sou filho do milagre, pois, como disse meu avô certa vez para minha mãe: “vocês terão uma vida melhor que a nossa e seus filhos terão uma vida melhor do que a suas”. Essa era a mais pura "verdade". Meus avós iam à escola descalços, estudaram, mas nenhum deles fez curso superior. Lutaram e construíram famílias numerosas, respectivamente 8 e 9 filhos, bem típico dos anos 40 e 50.

Meus pais nasceram nos anos 40. Mais ou menos à época em que Celso Furtado escreveu seu primeiro livro ‘Contos da vida expedicionária – de Nápoles a Paris’ e sua tese de doutorado L’economie coloniale bresilienne.

A vida era muito difícil, raramente comemorava-se o aniversário dos filhos como é feito hoje. Certa vez, ouvi essa história: minha tia, estimulada pela convivência de amigas mais abastadas, encasquetou que minha vó tinha que lhe dar um presente de aniversário. De tanto insistir, minha avó tirou do dinheiro reservado para o feijão um montante para satisfazer o luxo da filha. O dinheiro ia fazer falta, mas valeu à pena, pois ela ficou radiante em ganhar um pequeno saco de biscoito cream cracker. Esse “luxo”, para uma família operária de 9 filhos, só foi possível graças à prosperidade econômica e à mudança cultural dos anos 50. Na família de camponeses de onde veio minha avó, esse capricho, seria motivo para uma boa bronca.

Nos anos 50, as famílias que emigraram para as cidades, se inseriram no mercado de consumo e sofreram salto no padrão de vida e cultural. As crianças passaram a ter escola, todos se alfabetizaram e conheceram o mundo através da leitura e dos meios de comunicação.


Furtado e o desenvolvimentismo


A prosperidade econômica e o otimismo foram particularmente fortes no governo JK, cuja política econômica foi baseada no planejamento do plano de metas cuja metodologia e idealização se baseou na iniciativa e nos estudos recém criados por Celso Furtado no BNDE e na CEPAL durante o governo democrático de Getúlio Vargas.

No governo JK, Furtado criou ainda a SUDENE com o objetivo de tirar o nordeste do atraso econômico e social. A esperança e a fé no futuro àquela época pode ser percebida pelo livro 10º livro de economia política de Celso Furtado: ‘A pré-revolução brasileira’.


O desafio intransponível da desigualdade


Furtado sempre teve grande preocupação com a má distribuição de renda no Brasil, como se pode depreender de seu 12º livro: ‘Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina’. No Brasil vivemos uma espécie de sistema de castas, apesar de não tão rígido como na Índia. Existem os empregos de classe alta, os empregos de classe média, os empregos da classe operária e os subempregos dos marginalizados. As diferenças de remuneração entre essas "castas" é talvez a maior do mundo, e certamente muito maior do que na Índia.

Entre classe alta e média há alguma mobilidade, assim como entre classe operária e os marginalizados, mas entre a classe operária e a classe média, a mobilidade era limitada. Se o cidadão não encontrar a chave para essa mobilidade terá que se contentar com a indecente diferença salarial que existia entre um médico estabelecido e um profissional qualificado como um carpinteiro, ou, pior, entre um dentista e um profissional desqualificado como um funcionário de comércio popular. A chave do portão que divide essas classes se chama universidade ou pequena empresa bem sucedida. Eventualmente podemos dizer que existem outras chaves como o político, o artista ou o esportista bem sucedido, mas essas são ainda mais difíceis.

Para os liberais, o desempregado é um vagabundo e o pobre não se esforça o suficiente para sair de sua situação. Mas isso não é uma verdade, pois a ascensão social é um rígido funil. Por mais que lutem, as vagas para o outro lado não aumentam significativamente por iniciativa própria. Pode-se passar no vestibular por mérito próprio, mas nem todo mundo pode ter “mérito próprio” suficiente, pois o número de vagas não aumenta há muito tempo. Por mais que aumente o “mérito próprio” de todos, muitos não conseguirão tirar do fundo de sua alma e de sua luta “mérito próprio” suficiente, pois mais "mérito" não significa mais vagas. A ideologia da “meritocracia” na prática é mais uma forma de justificar os privilégios de nascimento.

Com as microempresas acontece um evento semelhante ao vestibular. As vagas como empresários bem sucedidos no ramo de bares na periferia, restaurantes de PF, vendedores ambulante, dono de serralheria, caminhoneiro autônomo e carreteiro são limitadas. Mesmo que o número de ofertantes desses serviços aumente, a demanda não aumentará significativamente. O mesmo poderia não acontecer, se esses microempresários vindo das classes operárias e marginalizadas conhecessem de computação ou alguma tecnologia avançada desde criancinhas e criassem uma Microsoft, ou seja, inventando seu próprio emprego. Se tivéssemos um monte de geniosinhos bem alimentados, e com tempo e acesso a todo o conhecimento que anseiam adquirir, pode ser que o número de vagas entre microempresários bem sucedidos não fosse tão limitada. Mas isso não é uma realidade, nem aqui e nem mesmo nos EUA. Não é qualquer um que nasce com desejo e capacidade para ser um megaempresário inovador, mas mesmo entre os que nascem, são poucos que tem essa oportunidade.

Na falta de melhores oportunidades, parte de nossos mais agressivos empreendedores, vindos das classes menos favorecidas, acabam criando empresas como a Fernandinho Beira Mar S/A. Cobrar que um desempregado seja um microempresário inovador bem sucedido é uma extrema injustiça e autoritarismo. Precisamos respeitar os desejos e os talentos das pessoas, considerando principalmente as limitações que lhes são impostas.


A solução da desigualdade não pode fugir do binômio: Desenvolvimentismo e Educação


Resumindo, o funil é rígido e por mais que se esforcem poucos podem atravessar. Mas entre os anos 30 e 1980 a boca do funil foi muito alargada. Não apenas o funil foi alargado, como também a renda e as oportunidades de emprego dentro das diversas “castas” foram significativamente ampliadas. Posso dizer que meus avós pertenciam à classe operária, eles melhoraram de vida durante os anos 40 e 50, graças não apenas à própria luta, mas também àqueles “anos dourados”.

Com meus pais foi diferente, eles atravessaram o funil. Foi difícil, lutaram muito, trabalharam enquanto estudaram mas conseguiram. Meu pai consertava estofamentos e acabou entrando na universidade pública, graças a muita garra. Mas entrou nela com a idade que tenho quando estou terminando meu doutorado. E, apesar das dificuldades iniciais, pôde aproveitar de oportunidades que não seriam imagináveis para meu avô. A farta oferta de empregos no período dava segurança aos jovens para sonhar um pouco mais, diferentemente de hoje, quando o desemprego assustador leva todos a buscar apenas a segurança financeira mínima, deixando guardado seus sonhos.

Quando meu pai saiu da universidade, em pleno milagre, ultrapassado o funil, pôde desfrutar da incrível fartura de empregos disponível aos integrantes da “casta média”. Podia-se dar ao luxo de financiar apartamento, carro e mobiliar a casa com poucos meses de salário. Além de dar aos filhos todo o conforto, educação e cultura, que um legítimo herdeiro da “casta média” “mereceria”. “Os filhos teriam mais conforto e cultura que os pais” e se Deus quisesse, mais democracia...

A ditadura era terrível, era manchada de sangue e havia exilado nossas melhores cabeças como do professor e ex-ministro do planejamento de João Goulart, Celso Furtado, que naqueles terríveis 20 anos escreveu 15 livros e outro tanto de artigos e ensaios. Dizem que havia dez mil exilados compulsórios e voluntários. Todavia, a esperança e o sonho, o sonho colorido, tropical e solidário imaginado pelos modernistas e plantado sob ferro e sabedoria com Getúlio, com alegria e coragem por JK e com ciência e fé por Furtado resistia bravamente. Havia retrocessos, mas também avanços. O desenvolvimento era uma questão de tempo. Coragem e esperança não faltavam, nem a um lado nem a outro, nem à esquerda nem à direita. As primeira décadas do pós-guerra foram um período muito romântico no resto do mundo, mas aqui foram a consolidação da nação, que pela primeira vez tinha fé em si mesma.


O Fim da “Era Vargas” do desenvolvimento


Podemos dizer que esperança e o sonho permaneceram vivos até a eleição de Tancredo. Anistia, diretas já, Henfil, tudo correspondia ao sonho. Nem a dura recessão do início dos anos 80, a primeira em muitas décadas, infringiu um abalo severo em nosso simbolismo. Com as esperanças renovadas, Furtado escreveu no primeiro ano da Nova República ‘A fantasia organizada’. Depois houve a morte de Tancredo, o fracasso do plano cruzado, a inércia do governo Sarney. Inércia que não foi acompanhada por Celso Furtado, pois mesmo insatisfeito com a condução da política econômica, manteve a disciplina e fez uma gestão corajosa no Ministério da Cultura. Todavia, a política econômica do Sarney fracassou.

Até aí, tudo bem, a gente esperaria a nossa vez. As diretas ainda não haviam chegado...

No entanto, as diretas trouxeram o que foi chamado pelo Professor Carlos Lessa de Fernandeca. Separado pelo feliz interregno de Itamar, que renovou-nos a esperança, vivemos entre os 2 anos de Collor de Mello e os 8 anos de Henrique Cardoso, um triste e constante balde de água fria. Como brinca o Professor Lessa, podemos fazer uma analogia desse período com aqueles terríveis anos de miséria que assolavam o Egito de tempos em tempos, como se fosse uma prolongada praga de gafanhotos (ou fernanhotos) que se abateu sobre nós. Mas o professor Furtado não se abateu. Escreveu nessa época seu 34º livro, ‘O longo amanhecer’, de um total de 36 livros de economia política.

A fernandeca foi a década de mais baixo crescimento e maior taxa de média de desemprego em toda nossa história. Isso espantou Celso Furtado: "Como explicar que uma economia com a vitalidade da brasileira, que nos primeiros três quartos do século XX beneficiou-se de um ritmo de crescimento superado apenas pelo do Japão, tenha se conformado com uma taxa de decrescimento no decorrer deste último decênio? [1]"

Como se não bastasse deixar a economia brasileira doente, os Fernandos se aproveitavam para pisotear e humilhar o enfermo, a proganda governamental ou semi-oficial se encarregou de desqualificar e desmoralizar os maiores símbolos de nosso orgulho. Primeiramente desqualificaram o sucesso de nossa história recente, a política de substituição de importações, de industrialização induzida pelo governo e muito bem descrita por Furtado, Tavares, Lessa, entre outros. Essa história que deu oportunidade para meus avós, meus pais e para mim. Como disse, sou filho da parte boa do milagre e neto da política econômica do Getúlio e JK. Essa história para mim é gloriosa, é a história da minha família, do meu povo. Uma história de luta, de esperança e de sonho.

Eles não poderiam ter desqualificado o que temos de melhor. Atacaram nossos símbolos, nosso orgulho. Nos anos 90 a Petrobrás virou “petrosauro”, a sistema elétrico mais limpo e barato do mundo virou "ultrapassado", o Proálcool, a energia promissora da biomassa tropical. virou rentseeking de usineiros, as estatais que nos deram uma fartura de aço, minérios, metais, celulose, petroquímicos, adubos, aviões e, principalmente, desenvolvimento, viraram paquidermes.

O que vinha de fora, o que era importado era o único padrão, as expressões inglesas passaram a ser adotadas em um ritmo nunca visto, as recomendações que vinham do FMI e do banco mundial eram a única lei. Fernando 2º chegou a até a sugerir que Chico Buarque era um “artista menor” (?!!!). Passaram de todos os limites!!

Assim, crise econômica, mediocridade política, subserviência geopolítica e cultural, propaganda neoliberal, imposição de pensamento único com interrupção do debate e monopólios da mídia, durante a fernandeca, mataram nossos sonhos e nossas esperanças.

"Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e que esperávamos ser" (Celso Furtado)


Lula, o PT e a esperança


Até que surgiu a luz no fim do túnel, não é uma luz tão recente, tem 24 anos, data da fundação do PT. Mas é uma luz que não parou de brilhar até as eleições presidenciais de 2003. Fundado a partir dos movimentos sindicais da segunda metade dos anos 70, o PT teve o Lula como fundador e estrela maior.

Lula ultrapassou sozinho todas as castas. Da marginalidade ao operariado, de operário a presidente. O Lula, metalúrgico, sindicalista e político também é um filho do milagre. Sua ida para São Paulo com a família, sua formação como torneiro mecânico no Senai e seu progresso social possivelmente também são netos do progresso econômico e social dos períodos Getúlio e JK. Desses herdou também a chama das nossas lutas pelo povo e pela nossa independência como nação.

A esperança venceu o medo nas eleições. Precisamos voltar ao ponto de onde paramos, voltarmos à esperança de um Brasil justo, igualitário, e cheio de alegria; alegria tropical, mestiça e autêntica. Um Brasil dos sonhos do professor Celso Furtado.

Será que todas as crianças nas ruas, e favelas e nas plantações puderam comemorar seu aniversário no ano de 2004? É hora do nosso povo voltar a sonhar em receber presentes de aniversário e até em coisas maiores, como no passado:


"Tínhamos a idéia de que, se o país conseguisse atingir um certo grau de desenvolvimento industrial, de desenvolvimento econômico propriamente dito, a um certo nível de desenvolvimento ganharia autonomia. Daria um salto enorme que significa sair de uma economia de dependência econômica para uma autêntica independência. Era nada menos do que isso que estava em jogo. E eu escrevei sobre isso, e disse que estávamos nas vésperas de dar esse salto. Foi nos anos 50, quando houve o debate sobre Brasília etc. Na verdade, houve uma tomada de consciência de um lado e de outro, o Brasil viveu o seu período mais intenso de construção política, de renovação do pensamento. Para mim, a história do Brasil tem um período extraordinariamente significativo, esse período que vai do fim do primeiro governo Vargas até o começo da ditadura militar, cerca de 20 anos. Foi uma ebulição política na qual todas as idéias vieram a debate, descobrimos tudo, tudo veio à tona, e foi um entusiasmo muito grande. Pelo Brasil afora, fui paraninfo de dezenas de turmas de estudantes... Era uma coisa muito empolgante, o país se industrializando, se transformando, incorporando massas de população à sociedade moderna” (Celso Furtado, dezembro de 2002; Caros Amigos, fevereiro).


Inclusive minha família e a do Presidente. Infelizmente...


“Isso tudo veio abaixo. E não veio abaixo porque a economia brasileira deixou de crescer, ao contrário, houve anos em que o Brasil cresceu mais ainda, mas veio abaixo porque mudou o estilo de desenvolvimento, e desapareceram as forças sociais que estavam presentes antes. Antes de 64 houve uma enorme confrontação de forças sociais, era aquele caldeirão, que causou tanto medo na grande burguesia e nos americanos... Passaram se trinta anos sem se poder pensar propriamente, ou sem poder participar de movimentos, a juventude mais agressiva e corajosa foi perseguida. Desmantelou-se o processo de construção do Brasil. E aquele ganho formidável alcançado no período anterior se perdeu. E o pior é que não foi possível abrir um debate sobre nada importante, porque toda a imprensa já estava controlada, tudo aferrolhoado, a juventude estava desmobilizada, era outro país" (idem).


Temos que ter novas esperanças e começar a sonhar de verdade, sonhar em escancarar o funil, chegou nossa hora, professor? “ Se o Brasil partir da identificação dos problemas sociais, conseguirá criar um tipo de opinião pública como essa que se manifestou agora na eleição de Lula. De tudo isso, o mais importante é a diferença que há nesse movimento de hoje em dia, que é de raiz popular, de raiz social, partiu para a investigação dos problemas sociais e não dos problemas econômicos. Portanto, acho que se ganha uma parte da batalha se for priorizado o problema social. Isso eu compreendo que é um pouco a estratégia de Lula. Colocando o problema social, ele vai criar um tipo de opinião pública cada vez mais democrática, de raiz popular, e essa opinião pública de raiz democrática é que vai permitir consolidar esse próximo momento, e você vai ter finalmente a transformação do Brasil partindo do social e não do econômico” (idem).

Estamos rezando...Até agora não vimos nada. Mas talvez seja porque Celso Furtado, no alto de sua longa e nobre experiência conseguia ver além da vigente cortina de mediocridade e desesperança: "Em um futuro que, imagino, não será muito remoto, parecerá simples devaneio de intelectual ocioso a referência ao que está ocorrendo na América Latina neste final de era marcado pelo fundamentalismo mercantil." (Celso Furtado, 2004)

Professor, esperamos que esteja certo. Mas se não for dessa vez, pedimos força para sabermos carregar sua bandeira nas próximas oportunidades. Suas esperanças não morrerão. Seu sonho, nosso sonho, ainda será realidade.

Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2004

(*) Doutorando em economia da UFRJ, na época, hoje economista do BNDES. Gostaria de agradecer a Sandra Carvalho, Eduardo Kaplan e Bruno Galvão dos Santos pela leitura e comentários.

Fonte: www.cartamaior.com.br